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IRAQUE DEZ ANOS DEPOIS

A invasão do Iraque comandada pelo ex-presidente George Bush, sob o pretexto de derrubar a ditadura de Saddam Hussein e implantar um regime democrático no país, é descrita hoje, por vários analistas internacionais como um grande erro de avaliação, dez anos depois das primeiras bombas destruírem quase toda Bagdá.

Esta avaliação tem motivado Hollywood numa série de filmes, onde é defendida a tese segundo a qual Bush teria sido induzido pela CIA a concretizar a invasão. Destes, destaca-se “O jogo do Poder” que conta em detalhes a história dos fatos que antecederam a invasão. O filme é baseado na autobiografia da ex-agente secreta da CIA, Valerie Plame, cuja carreira foi destruída e seu casamento forçado ao seu limite por um vazamento de imprensa envolvendo a Casa Branca, para levar Bush a autorizar a invasão.

Mas porque a democracia não conseguiu ser implantada como os americanos queriam? Segundo Creomar de Souza, professor de relações internacionais da Universidade Católica de Brasília (UCB) um dos principais empecilhos foi “o rearranjo de forças entre sunitas e xiitas ainda instável, o que mantém o país sob tensão”. E ele acrescenta: “As autoridades não convenceram a população de que a democracia é um regime melhor que a ditadura comandada durante décadas por Saddam Hussein. A tensão étnica e sectarismo se tornaram o mais importante elemento na política iraquiana desde a invasão dos EUA / Reino Unido em 2003. Esta polarização das inter-relações entre as etnias Iraquianas não ocorria tão intensamente antes. Isto explica muitos dos crimes hediondos que estão acontecendo incluindo assassinato e sequestro”.

Segundo o analista Jonathan Steele, em matéria publicada pelo The Guardian “dez anos depois do início da invasão, o país ainda não conseguiu superar a escalada de violência e contabiliza 174 mi mortes, de acordo com o “Iraq Body Cout” (IBC), um órgão criado para registrar as mortes de civis resultantes da invasão norte-americana do Iraque em 2003”. E Steele acrescenta: “Apesar do auge da violência no Iraque ter ocorrido entre 2006 e 2007, os conflitos permanecem e ainda há uma média de 300 mortos por mês”.

Outros perigos graves e com risco de vida os Iraquianos têm enfrentado nos últimos anos, segundo a ONU. Desde a invasão liderada pelos EUA em 2003, o Iraque tornou-se um ponto de passagem no fluxo de haxixe e heroína do Irã e Afeganistão. O Ministério da Saúde Iraquiano confirma que as taxas de dependência dos locais estão subindo de forma constante, enquanto antes, o uso de drogas não era um problema Iraquiano.

O atual governo, comandado pelo primeiro-ministro Nouri Al Maliki, reconhecido pelo Parlamento em maio de 2006, está chegando ao fim de seu segundo – e último– mandato. Mas ainda não conseguiu convencer a população de que a democracia é melhor que o regime de Hussein. Para o professor Creomar de Souza a grande questão atual do Iraque é a necessidade de mostrar às pessoas que vale mais a pena ter uma democracia que uma ditadura. E ele acrescenta: “Mas os avanços reais são todos muito pequenos neste primeiro momento. Não houve avanço substancial em dez anos. A construção de um regime democrático é tarefa para uma geração e essa geração tem que assumir um pacto de que quer construir isso. Enquanto as instituições do Iraque continuarem tendo dificuldade de vender a ideia de que país é livre e democrático, muita gente vai continuar recorrendo à violência para assumir poder, em vez de se filiar a um partido e concorrer a uma eleição”.

Além das tensões étnicas, a possível tentativa de reeleição de Nouri Al Maliki pode agravar a instabilidade no país. O Parlamento decidiu que os líderes só podem ter dois mandatos, mas o atual primeiro-ministro está disposto a recorrer aos tribunais para se manter no poder. Esse risco sempre existe em um país onde a democracia é instável, explicou Souza.

Em recente visita a Bagdá o Secretário de Estado John Kerry criou mais um complicador na frágil democracia iraquiana, quando disse ao primeiro-ministro, que o país deve tomar medidas para impedir o Irã de não enviar armas para a Síria através do seu espaço aéreo. Mas uma hora e 40 minutos de discussões não produziram um avanço sobre a questão. Os voos iranianos, que são de vital importância para as forças de Assad, representam um grande desafio para a estratégia norte-americana sobre a Síria. Kerry tem dito repetidamente que a administração Obama quer mudar a visão segundo a qual “Assad pode prosseguir na luta e persuadi-lo a abandonar o poder e concordar com uma transição política”.

Mas Robert Ford, embaixador americano para a Síria e funcionário do Departamento de Estado, em depoimento ao Congresso, disse “que o Irã tem sido fundamental com sua ajuda, fortalecendo a crença de Assad que ele pode derrotar os rebeldes”. Um funcionário do Departamento de Estado viajando com Kerry informou ainda “que aviões transportando armas iranianas chegam à Síria quase diariamente”. O Irã insiste que os voos transportam apenas ajuda humanitária.

A visita de Kerry ao Iraque foi a primeira de um secretário de Estado americano desde 2009. Ele veio num momento em que surgem preocupações sobre o papel do Iraque na crise na Síria, e qual a influência dos Estados Unidos no conflito. O Departamento de Estado reduziu sua enorme presença no país e seus diplomatas se mostram impotente para alterar o curso dos acontecimentos. Mas duas preocupações mais urgentes estão na agenda de Washington: a tolerância do Iraque para as transferências de armas iranianas para a Síria e emissão de mandados de prisão para certos líderes sunitas por o governo dominado pelos xiitas iraquianos. Some-se a isso, segundo assessores do Primeiro Ministro, o que consideram “um descaso do Presidente Obama para com o país”.

A manchete de domingo no jornal iraquiano Al Mada referindo-se a viagem do presidente americano para o Oriente Médio estampou na primeira página: “Obama visitou a região, mas ignorou o Iraque.” E o jornal destacou: “O Iraque não foi sequer mencionado nos discursos de Obama para a região e todos os protestos e atentados no país não chamaram a atenção de Obama.”