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Coreia do Norte: Tigre de fogo ou de papel?

Um dia antes da Coreia do Sul e Estados Unidos iniciarem manobras militares no país asiático, a Coreia do Norte ameaçou entrar em uma “guerra sem quartel” com os dois países. Segundo o regime de Pyongyang, essas manobras são um teste para invadir o país comunista.

“Nossa linha de vanguarda militar, o exército, a marinha e as forças aéreas, as unidades antiaéreas e as unidades de foguetes estratégicos, que já se encontram na fase de guerra sem quartel, aguardam a ordem final para atacar”, publicou o jornal oficial do partido único norte-coreano.

Ainda de acordo com o jornal, os EUA e a Coreia do Sul serão transformadas em um “mar de fogo num piscar de olhos”.

Seul e Washington, capitais dos respectivos países envolvidos nas manobras militares, garantiram que os exercícios têm objetivo defensivo. Em resposta, há a expectativa de que a Coreia do Norte faça grandes manobras militares perto de sua fronteira com a vizinha do Sul.

O regime comunista também garantiu que o arsenal nuclear do país está “pronto para o combate“.

Dentre as ameaças no discurso oficial, está a anulação do cessar-fogo com a Coreia do Sul e o corte da única linha de comunicação com o governo de Seul.

A Coreia do Norte anulou acordos de não agressão com a vizinha Coreia do Sul, assinados após a Guerra da Coreia, em 1953, declarando estar disposta a iniciar uma guerra nuclear. Observadores da ONU acreditam que o ditador Kim Jong-Un aumentou o tom das provocações para reforçar sua imagem dentro e fora do país e que estaria blefando. Mas a Coreia do Norte afirma que tem mísseis nucleares prontos para atacar. O Rodong Sinmun, o jornal oficial do partido único, por sua vez, reiterou a ameaça de uma “guerra termonuclear”. Segundo o jornal “a guerra não se veria confinada à península coreana, mas o arsenal balístico do país que é capaz de atingir o território americano, sobretudo as ilhas do pacífico, inclusive o Havaí”.

Sobre a ameaça o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney afirmou: “Eu posso dizer-lhes que os Estados Unidos são totalmente capazes de se defender de qualquer ataque com míssil balístico norte-coreano. Nossos sucessos recentes em voltar a testar a versão atualizada do chamado míssil GBI ou CE-II nos manterão em uma boa trajetória para melhorar nossa capacidade de defesa contra ameaças limitadas de mísseis balísticos”. A porta-voz do Departamento de Estado, Victoria Nuland, disse que Washington leva as ameaças muito a sério, mas declarou que “a retórica extrema não é incomum neste regime”, acrescentando: “Nós não temos apenas uma capacidade total de defender os Estados Unidos, mas estamos preparados para defender nossos aliados”.

Enquanto isso há um sério temor de que, com os exercícios militares dos dois lados da fronteira, com a Coréia do Sul operando em conjunto com as forças americanas acantonadas no país e a retórica bélica exacerbada, qualquer faísca provoque um conflito na região. Kim Jong-Um acusou os Estados Unidos de quererem provocar uma guerra atômica e ameaçou o país com um ataque nuclear preventivo, uma ameaça à qual Washington respondeu afirmando ser “completamente capaz de defender a si e a seus aliados”.

Na ONU o embaixador russo Vitáli Tchúrkin declarou que “a Rússia está disposta a apoiar um projeto de resolução do Conselho de Segurança elaborado pelas delegações dos Estados Unidos e da China, com sanções contra a Coréia do Norte, em represália aos testes nucleares do país”. Segundo Tchúrkin, “é preciso deixar claro ao governo de Pyongyang que tais ações são inadmissíveis e relembrar da importância de retomar as negociações entre seis partes sobre a desnuclearização da Península Coreana”.

O embaixador da Coreia do Sul para as Nações Unidas, Kim Sook, também se mostrou satisfeito com o projeto de resolução. O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, ao comentar a intenção do governo norte-coreano de declarar o acordo de cessar-fogo como nulo, disse “que a administração norte-americana espera que a Coreia do Norte esteja buscando a paz e aceite retomar as negociações”.

Mas existem jogadas imprevisíveis no bojo da crise. Segundo a previsão de alguns analistas no “balé geopolítico tudo é possível e, assim, logo é possível que a Coréia do Sul se aproxime da China, e que venha a se tornar uma de suas parceiras comerciais”. Esses mesmos analistas destacam a importância comercial de um para o outro já é clara e só tende a crescer. Também existe a importância política na região, se os países orientais superarem os fantasmas da segunda guerra e passarem a promover uma maior rede de acordos multilaterais. Com a queda de influência americana, provavelmente  esses acordos envolverão China, Coréia do Sul, Japão e, em menor aspecto, Taiwan, Tailândia e Cingapura.