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A “bolha” de cada um de nós

Por Coronel Eliane
Nikoluk*

Ao longo de muitos anos servindo e lidando com pessoas,
constatei algo interessante: um mesmo fato, frequentemente, é visto ou avaliado
de forma completamente diferente entre as pessoas. Observando essas quase
“gritantes” diferenças de opiniões até sobre coisas triviais, questionei a mim
mesma por qual motivo isso acontece. Por que uma mesma coisa, ou um determinado
fato, acaba gerando opiniões tão diferentes entre as pessoas? Isso me chamou
muito a atenção, porque são exatamente essas divergências que acabam dividindo
famílias, separando amigos e levam até, a fatos mais graves, onde pessoas
discutem, brigam, se agridem e até se matam em razão de diferenças.

Quando há pessoas de diferentes países e culturas, não é tão
espantoso ver posicionamentos diversos. Na verdade, até achamos bonito,
respeitamos mais porque são “estrangeiros”, tem uma cultura diferente. Mas
quando debatemos com pessoas da própria família, vizinhos ou pessoas do nosso relacionamento
mais próximo, parece que a paciência… encurta. Não aceitamos que o outro
possa pensar tão diferente sobre um mesmo fato. E normalmente, queremos impor a
própria opinião. Quando isso ocorre sem tato, paciência e respeito, está
formada a confusão!

Quem é que nunca soube de alguma discussão, briga ou, no mínimo,
um “mal estar” entre amigos e parentes, por causa de banalidades do dia a dia,
ou coisas mais “sensíveis” como futebol, religião ou mesmo, sobre as últimas
eleições? Quem não ficou “magoado” com alguém que, de forma franca (até demais)
expressou um ponto de vista completamente diferente do seu e, apesar de nossos
“incríveis e irrefutáveis” argumentos, não mudou nem um pouquinho de
idéia?  Qual pai ou mãe de filhos
adolescentes já não teve uma discussão mais “calorosa” por causa de opiniões
completamente divergentes, por exemplo, sobre a política?

 Isso é um tema tão vívido
e real que, dos chamados de emergências registrados pelo Centro de Operações
(COPOM) da Polícia Militar, mais de 50% deles são solicitações de atendimentos
assistenciais ou desinteligências (brigas em andamento ou não resolvidas).
Discussões intensas que, às vezes, chegam à agressão e até morte entre vizinhos
por causa de muros, lixo, barulho ou animais de estimação; entre pais e filhos;
entre casais; entre grupos que se agridem nas ruas por causa de diferenças
ideológicas ou políticas; pessoas que brigam por questões do dia a dia banais,
mas que representam pequenas coisas mal conversadas e mal resolvidas que vão se
“acumulando” e, de repente, “explodem”…

Provavelmente, uma das causas dessa divergência possa ser… “a
bolha”.

Vamos imaginar, para entender melhor, que cada pessoa esteja
dentro de uma “bolha de sabão”, que representa um pequeno “mundo”. Na nossa
“bolha de sabão”, estamos relativamente isolados, mas podemos “mesclar” nossas
“bolhas imaginárias” com as de outras pessoas, formando “bolhas” maiores, mais
permeáveis, com mais pessoas, conforme a afinidade. O lado bom de “mesclar as
bolhas” (e para isso, é preciso que a nossa “bolha” esteja bem permeável) é nos
permitir novas experiencias e vivencias, “quebrar” nosso próprio “mundinho” e
nos abrir para horizontes, verdades e possibilidades muito maiores.

Na prática, cada um de nós, como indivíduos que somos, vive em
um determinado ambiente, tem uma rotina, preferencias ou hábitos próprios, que
podem ou não ser compartilhados por outras pessoas que vivem rotinas
semelhantes ou compartilham várias atividades conosco, gostam de coisas
semelhantes e, portanto, acabam compartilhando de valores semelhantes e
pensando de forma mais parecida.

Antigamente, é possível que “a bolha” de cada um fosse mais
permeável as novas vivencias e experiencias, e que “a bolha mesclada” de um
determinado grupo ou família fosse mais forte porque as pessoas conversavam
muito mais, faziam mais coisas juntos, conviviam mais intensamente e, portanto,
acabavam compartilhando mais dos mesmos valores, ideais, preferencias e
opiniões. Conseguiam naturalmente gerar uma sinergia maior entre si.

Nos dias atuais, com o “boom” da tecnologia preenchendo todos os
momentos de nossas vidas, acabamos nos isolando mais das outras pessoas, mesmo
quando estamos lado a lado. Nesse caso, cada “bolha” fica mais impermeável às
outras “bolhas”, nos torna mais solitários e “limitados” às nossas próprias
experiencias e rotinas. Por exemplo, quem já viu várias pessoas, em um mesmo
ambiente, dedicando intensa e exclusiva atenção… ao próprio telefone celular?
Quem já notou famílias que (raramente) conseguem fazer juntos uma refeição, ir
a um restaurante ou mesmo, compartilhar de um churrasquinho entre amigos, mal
conversam e acabam interagindo mais com os próprios celulares do que com as
pessoas? Até pouco tempo, era a televisão…

Talvez, seja um bom momento para refletir sobre essa tal “bolha”
de cada um de nós. Tem se tornado mais “blindada”, mais impenetrável? Qual a
consequência desse isolamento para nós, como indivíduos e como sociedade?
Depressão? Discussão? Mais isolamento e solidão? Falta de tolerância e
paciência? Insatisfação? Desrespeito? Falta de sensibilidade? Tristeza? Pois
é… fala-se tanto desses tais “males crescentes da sociedade moderna”… por
que sera?

Empatia (capacidade psicológica de compreender melhor o outro,
colocar-se no lugar do outro), respeito (sentimento positivo que em latim,
significa “olhar outra vez” e é um dos valores mais importantes para o ser
humano e para a vida em sociedade), diálogo (conversação entre duas ou mais
pessoas que para ocorrer, pressupõe compreensão e boa vontade recíproca),
paciência (virtude humana de auto controle emocional, tolerância com erros
alheios, perseverança) e boa vontade (que tem como sinônimos dedicação,
benevolência, prestatividade, disposição, vontade, entusiasmo, simpatia,
amizade, zelo) são atitudes e valores que podem, certamente, prevenir a
“blindagem” de nossa “bolha” individual, tornando-a muito mais permeável e
aberta à “mesclagem” com outras “bolhas” e resgatando nossa capacidade de
dialogar e respeitar as diferentes opiniões. Pois só o diálogo e o respeito
podem trazer a mediação dos conflitos e o consenso entre as pessoas, reduzindo
os conflitos, gerando caminhos comuns e fortalecendo os laços sociais tão
necessários para a construção de uma Nação forte, segura, justa e melhor para
todos!

Empatia, respeito, diálogo, paciência e boa vontade… vamos
praticar?

Um excelente 2019 a todos!!!

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*Coronel Eliane Nikoluk
Scachetti
é ex-comandante do policiamento da RMVale e Litoral Norte,
especialista em Gestão e Segurança Pública.Fonte: Artigo publicado em 15 de
janeiro no site: www.meon.com.br

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